Eu gostava muito de ti. Era tão bonito, era tão intenso. Acreditava no para
sempre. Imaginei uma casa, uma família, uma coisa só nossa. Um esconderijo, um
refúgio, um paraíso. Cada vez que eu pensava em ti me dava um calorzinho no
peito, o mundo parava de rodar por um
segundo. E eu achava que aquilo era amor, achava que aquilo era o certo, achava
que a gente era certo um na vida do outro. Mas não foi. Não fui. Não fomos. Não
somos.
Quem gosta quer estar junto. Quem gosta demonstra. Quem gosta faz
planos. Quem gosta apresenta para a família e amigos. Quem gosta manda uma
mensagem bobinha só pra dizer que te ama.
Já ouvi várias vezes ah-como-você-lida-bem-com-as-coisas. Não, não lido.
Sou péssima em lidar “com as coisas”. Sou ciumenta com coisas bobas, impulsiva
pelo menos uma vez por dia, leio bula de remédio e depois acho que tenho aquele
bando de sintomas, meu dedão do pé não é bonito, quero tudo do meu jeito e
minha cabeça é muito, muito dura. (...) Amo muito, tudo é muito, tudo é
exagero, tudo é demais.
É, a vida vai nos endurecendo. A gente nasce livre, puro, ingênuo,
acreditando. Tomamos uma, duas, três, vamos colocando um capuz, um escudo, uma
armadura. E salve-se quem puder. E consegue chegar quem deixarmos. O fato é que
estou com medo. Medo de gente. Pânico da capacidade que as pessoas têm de andar
lado a lado com a maldade. Medo de viver num mundo imundo como o nosso. Pobre
de valores. Pobre de espírito. Podre de coração!
Esperando quase nada que um quase tudo apareceu. Simples como um fim de
tarde. No começo era medo, incerteza, insegurança surgindo como relâmpago no
céu. Depois, uma sensação de pertencimento, de paz, de alegria por encontrar um
sentimento desconhecido, mas que fazia bem. Não teve espumante, holofote,
tapete vermelho. Foi simples como um fim de tarde. Algum frio na barriga,
interrogações deslizando pelas mãos suadas, uma urgência em saber se aquilo era
ou não pra ser. É que um dia alguém nos ensina que quando é pra ser a gente
sente.
Nem sempre dura. Nem sempre é eterno. E precisamos lidar com isso. Nem que seja na marra. Nem que tenha que engolir o choro de vez em quando. Nem que a gente tenha que fingir que está tudo bem
Amizade se paga com amizade. Sou legal com quem é
legal comigo. Falta de consideração se paga com falta de consideração. Não sou
legal com quem não é legal. Olha, me desculpa, mas essa coisa de
vamos-ser-todos-legais não é pra mim. Sabe por quê? Eu cansei. Cansei de ser
bobinha, sem maldade, sem malemolência. Agora, eu jogo o jogo. A gente precisa
ter um pouco de malícia para compreender as pessoas. Depois de muito tomar na
cara, é difícil eu me enganar. Sei exatamente com quem posso contar, pra quem
posso chorar, pra quem posso desabafar. E quer saber? Penso bem antes de sair
por aí pegando o telefone e ligando para meus amigos. Primeiro, tento resolver
comigo mesma. Depois, desabafo.
Se
alguma coisa não deu certo pra ti, não jogue a culpa no amor. Ele não tem nada
a ver com isso. As coisas dão certo até onde têm que dar. Se parou de
funcionar, se o amor morreu sufocado ou afogado, se não tem mais jeito, o
negócio é viver o luto, curtir a fossa e cuidar da vida. Fazer aula de
italiano, ler vários livros, assistir filmes, jogar charme para o vizinho do
andar de cima. Sem ofender o amor e os apaixonados. Porque um dia tu vai amar
de novo. E, desculpa o meu lado bobo, mas um dia tu vai amar de novo o amor da
sua vida. Envelhecer junto. Andar de bengala na praça em um domingo ensolarado
e dizer um-dia-eu-ri-da-cara-do-amor.
Sempre fui de me doar. Ouvia, ajudava, consolava,
me importava. E não foram poucas as vezes que, mesmo em segredo, eu deixava de
pensar na minha vida pra ajudar os outros. Em segredo, explico, porque não acho
que preciso de medalhas, prêmios ou troféus. Se eu faço, é de coração, sem
esperar reconhecimento do outro. Mas, perdão, eu sou humana e sinto. O mínimo
que a gente espera é gratidão. Aprendi que ela nem sempre aparece. Aprendi que
às vezes as pessoas acham que o que a gente faz é pouco. Por tanto aprendizado,
acabei descobrindo que é melhor eu cuidar mais da minha vida e menos da dos
outros. Não quero morrer santo, quero morrer feliz.
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